Em defesa de
um sistema de saúde universalista, equânime e integralizador
Nesses tempos de globalização da economia e de redefinição do papel do Estado,
ou seja, de modelo neoliberal, de valorização do privado em detrimento do
público, cumpre aqui analisar mesmo que breve e superficialmente no contexto
geral do desenvolvimento do nosso país a lamentável situação em que se encontra
o sistema de saúde brasileiro. As constatações que fazemos, seja pessoalmente
junto aos hospitais e postos de saúde, ou ainda pela mídia, nos mostram
um triste quadro em que predominam as filas nos serviços de atendimento
à saúde, carência de leitos hospitalares e, mais recentemente, o retorno
de determinadas doenças que de endêmicas acabam por se tornar epidêmicas,
tais como a febre amarela e a dengue que, no caso desta última, já vitimou
fatalmente, no Rio de janeiro, em menos de dois meses, mais de 100 pessoas,
na sua maioria crianças pobres.
Todavia, o publico que vem sofrendo
com a picada do mosquito Aedes Egipts, transmissor
da dengue, é na sua imensa maioria formada por pobres com pouco ou nenhum
recurso que lhe permita ter acesso a um atendimento médico de qualidade.
E o problema não se restringe apenas e tão-somente à cidade do Rio de Janeiro.
As notícias dão conta de mostrar que em outras regiões do país o problema
ganha também ares de epidemia, enquanto os governos (federal e estaduais)
se negam a reconhecer a gravidade da situação. Em função disto adotam,
como sempre, medidas paliativas, quando não responsabilizam a população
pela expansão do foco do mosquito. Com esta postura tentam afastar de si
a responsabilidade pelo péssimo atendimento à saúde, certamente o principal
responsável pelos casos de mortes, dado que se socorridas a tempo por um
sistema eficiente, as vítimas teriam tido muito mais chances de sobrevivência.
Diante disto, cabe aqui alguns questionamentos
com relação a um sistema de saúde que não atende aos requisitos básicos,
conforme determina a Constituição Federal, no seu artigo 196, ao afirmar que “a saúde é direito de todos
e dever do Estado, garantindo mediante políticas sociais e econômicas que
visem à redução do risco de
doenças e de outros agravos e ao aceso universal e igualitário às ações
e serviços para sua promoção, proteção e recuperação”.
Em primeiro lugar os gastos em saúde
estão sempre abaixo das necessidades da população. Em entrevista à revista
Época de 31/08/2007, o ministro da saúde , José Gomes Temporão admite que
“O Brasil gasta pouco, tem que gastar mais, e a qualidade tem que melhorar”.
O que significa dizer o que o gestor público acaba de reconhecer a enorme
deficiência na área da saúde e inclusive no tocante à qualidade dos serviços.
Se comprovados os dados publicados
pela mesma revista de que o gasto per capita é da ordem da 280 dólares
(ao câmbio atual cerca de R$ 473,55) significa um gasto de um 1 Real e 29 centavos/dia por habitante. O que
nos coloca bem abaixo de outros paises do cone sul como Argentina e Chile,
por exemplo e ainda distante
da média mundial que é de 806 dólares por pessoa.
TABELA 1- GASTO FEDERAL COM SAÚDE, COMO PROPORÇÃO DO
PIB
| Brasil
- 1994-2005 |
|
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|
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|
|
| Itens
de gasto |
1994 |
1995 |
1996 |
1997 |
1998 |
1999 |
2000 |
2001 |
2002 |
2003 |
2004 |
2005 |
| Pessoal |
0,34 |
0,38 |
0,3 |
0,27 |
0,24 |
0,24 |
0,23 |
0,21 |
0,21 |
0,23 |
0,22 |
0,2 |
| Outras
despesas correntes |
1,37 |
1,27 |
1,04 |
1,12 |
0,82 |
0,79 |
0,67 |
0,64 |
0,59 |
0,48 |
0,34 |
0,31 |
| Outros
gastos diretos |
0,06 |
0,08 |
0,06 |
0,08 |
0,09 |
0,1 |
0,1 |
0,1 |
0,1 |
0,08 |
0,09 |
0,08 |
| Transferência
a estados e DF |
0,12 |
0,12 |
0,07 |
0,09 |
0,1 |
0,13 |
0,2 |
0,23 |
0,26 |
0,29 |
0,41 |
0,45 |
| Transferência
a municípios |
0,04 |
0,1 |
0,19 |
0,26 |
0,44 |
0,59 |
0,63 |
0,68 |
0,69 |
0,66 |
0,73 |
0,72 |
| Total
|
1,94 |
1,95 |
1,65 |
1,8 |
1,69 |
1,85 |
1,82 |
1,85 |
1,85 |
1,73 |
1,78 |
1,76 |
Fonte: IPEA/DISOC - Estimativas
anuais a partir dos dados do SIAFI/SIDOR e das Contas Nacionais do IBGE.
Os cerca de 50 bilhões
de reais previstos em investimentos para 2008 equivalem aos gastos destinados pelo estado há 17 anos, ou
seja, os mesmos US$ 280 anuais per capita, sem considerar no entanto
o crescimento do número de idosos, resultado da elevação da expectativa
de vida dos brasileiros, conforme revela estudo desenvolvido pela Fundação
Instituto de Administração (FIA), vinculada a Universidade São Paulo sobre
investimentos em saúde em seis países da América Latina (Brasil, Argentina,
Chile, México Venezuela e Colômbia). Os Dados contidos na tabela 1 demonstram
uma clara diminuição nos investimentos, com pequenas variações para cima,
mas que no geral, de 1994 a 2005 a
tendência é de redução dos
gastos com saúde proporcional ao Produto Interno Bruto brasileiro.
Cumpre aqui ressaltar que o período em questão envolve a gestão dos
governos FHC e Lula, continuadores
do modelo neoliberal implantado a partir de 1990, e da introdução de mecanismos
favorecendo o mercado e reduzindo o papel do Estado que não deixaram de atingir a área da
saúde. Haja vista a criação do superávit primário, ou “aperto fiscal”, que
o governo Lula mantém em percentuais acima daquele patamar estabelecido
por FHC, ou seja, de 3,75% para 4,25% do PIB. E para isto tem sido contingenciados
recursos também da saúde para o pagamento das dívidas contraídas pelo governo.
Assim, o sistema de saúde no Brasil,
não obstante uma série de mudanças, a partir da promulgação da Constituição
de 1988, com a criação do SUS,
que abriu as portas do sistema para a universalização do acesso à saúde,
tem-se ainda no geral em nosso país um atendimento que deixa a desejar e
que, por isso, acaba servindo com mais um fator para reproduzir e perpetuar
as desigualdades sociais.
Quando se trata das formas de financiamento
do sistema de saúde são visíveis os constantes desvios resultantes da malversação
do dinheiro, seja pela corrupção ou para atender a uma lógica perversa em
que o “deus” mercado acaba por impor as regras. Por isto mesmo, contribui
para prejudicar imensamente a maioria da nossa população que necessita desesperadamente
de atendimento médico-hospitalar de caráter público.
A base do sistema de saúde não pode
de maneira alguma obedecer as regras ou lógica ditadas pelo mercado, bem
como permitir que os recursos disponíveis para a manutenção do Sistema Único
de Saúde – SUS – sejam transferidos automaticamente ao sistema financeiro
todas as vezes que o governo, para executar ações voltadas ao pagamento
da dívida pública, resolve contingenciar recursos da
saúde, como vem sistematicamente fazendo ao longo dos anos.
A grande prejudicada nesse aspecto
tem sido a área social, especialmente a saúde, e, por extensão, a população que sem um atendimento digno
acaba por se distanciar cada vez mais dos direitos cidadãos. Para uma enorme
parcela do povo brasileiro o não atendimento, ou atendimento precário, empurra
inevitavelmente essa massa humana para uma condição em que sendo a cidadania
vilipendiada os efeitos disto é a sua transformação em verdadeiros
párias sociais. O surto epidêmico da dengue no Rio de Janeiro, em razão
do claro descaso do poder público (federal, estadual e municipal) é a prova
cabal desta afirmação. E quem ganha com isto são os de sempre, os ricos,
vez que a desvinculação de receita da saúde e de outras áreas sociais para
atender compromisso com o setor financeiro, ou seja, com quem vive da especulação,
apenas reforça as desigualdades, enriquece uns poucos e empobrece a maioria.
Com isto compromete a democracia, bem como a possibilidade de se construir
uma nação com justiça social e valorização da pessoa humana
Do mesmo modo que a adoção de uma ação política
do governo que, em vez de optar pela universalização do atendimento à saúde
pelo SUS prioriza uma outra, focalizada, para atender a lógica do modelo
neoliberal deixa de reconhecer o papel que cabe ao Estado na promoção da
melhoria das condições de vida da população e que deveria seria como catalisador
e não para fragmentar ainda mais o já esgarçado tecido social em benefício
do mercado, onde este tipo de serviço encontra-se disponível para os que
podem pagar pelo seu acesso.
Nesse sentido, a valorização do
Sistema Único de Saúde – SUS – é o caminho ideal e fundamental para se fazer
justiça, reduzir as desigualdades e promover o bem-estar da população no
tocante ao atendimento à saúde. Para tanto, deve-se considerar que os preceitos
inseridos na Emenda 29 relativos as atribuições das três esferas de governo,
em se tratando de destinação orçamentária, deve ser respeitados, independentemente
da não aprovação da CPMF, pelo Congresso Nacional, visto que esta forma
de recurso, apesar de ter sido criada para
contribuir no financiamento da
saúde, na prática nunca cumpriu integralmente esta função. Portanto, não
se justifica a posição do governo
Lula de que a Emenda 29 precisa ser revista.
Diante do
exposto e considerando o nosso compromisso com as mudanças da sociedade
e particularmente com as questões sociais, pois a defesa do sistema de saúde
pública, universalista, é um dever
pelo qual todo e qualquer esforço é bem-vindo para que este possa se concretizar.
Neste momento
de definição de rumos sobre a saúde dos brasileiros temos aqui a intenção
mesmo que pequena de influenciar a discussão sobre a saúde no Brasil por considerá-la como
um elemento importante em se tratando de direito social, particularmente
neste momento crucial da vida nacional em que está em jogo uma série de
conquistas sociais resultantes da luta do nosso povo.
Por isso,
com base em discussões sobre os problemas brasileiros entendemos ser prioridade
do sindicalismo o compromisso com as questões que envolvem à saúde e, por
isto, estamos propomos:
[1] Aparecido Inácio da Silva é presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Caetano do Sul, mestre em Direito do Trabalho pela PUC/SP e advogado.