Emprego cresce pelo segundo ano seguido, mas salário cai

Em 2019, Grande ABC criou 19.391 postos formais, totalizando 755.765, mas renda diminuiu R$ 48,04, para R$ 3.110,97


Em 2019, o emprego com carteira assinada no Grande ABC aumentou, pelo segundo ano consecutivo, após amargar cinco anos de queda na criação de postos de trabalho formais. No entanto, o salário médio pago nas sete cidades diminuiu, assim como em 2018. Segundo especialistas, isso se deve ao fato de haver um alto volume de desempregados, remanescente da crise econômica, e, portanto, uma larga oferta de mão de obra, o que estimulou rotatividade nas empresas e fez com que os vencimentos oferecidos aos novos contratos diminuíssem.

No fim do ano passado, conforme dados da Rais (Relação Anual de Informações Sociais), do Ministério da Economia, tabulados pelo Diário, havia 755.765 profissionais com registro em carteira na região, 19.391 ou 2,63% mais que em 2018, quando o estoque de trabalhadores totalizava 736.765 empregos. Dois anos atrás, o volume de vagas formais também havia aumentado, em 7.417 postos, ou 1,02% – em 2017, o estoque era de 728.957.

Porém, os salários pagos a esses profissionais vêm caindo. No ano passado, o valor médio da remuneração no mercado formal do Grande ABC era de R$ 3.110,97. E, em 2018, de R$ 3.159,01. Ou seja, houve redução de R$ 48,04, ou 1,52%. Dois anos atrás, a queda havia sido de R$ 54,07, ou 1,68% – em 2017, a média chegava a R$ 3.213,08.

Na avaliação de Sandro Maskio, coordenador de estudos do Observatório Econômico da Universidade Metodista de São Paulo, dois fatores podem explicar a situação. “Um deles é que, em cenário de crise econômica, com nível elevado de desemprego, há mais espaço para a rotatividade da mão de obra, o que possibilita às empresas trocarem os profissionais por outros de menor salário”, aponta. “Outro ponto é que, no mesmo contexto, os trabalhadores têm pouca força para negociar dissídios, o que também não puxa para cima os valores remunerados.” Isso porque, em 2019, o INPC (Índice Nacional de Preços ao Consumidor), utilizado para reajustar vencimentos, avançou 4,48%.

Os dados da Rais demonstram, conforme complementa Maskio, que “a retomada no mercado de trabalho, especificamente dos salários, é mais lenta que a retomada da atividade econômica”.

O coordenador do curso de administração do Instituto Mauá de Tecnologia, Ricardo Balistiero,  assinala que os números apontaram para ligeira melhora em 2019 porque foi o primeiro ano do governo Jair Bolsonaro (sem partido), então havia uma expectativa de envio e aprovação de reformas, de agenda mais liberal, e a economia vinha de uma base muito deprimida, ainda sob o impacto de uma recessão de 2015 e 2016. “Então não foi tão difícil gerar mais emprego no ano passado, embora os números tenham ficado muito aquém do que se esperava inicialmente. Mesmo assim, o volume de desempregados ainda é expressivo e, quando o nível de desemprego está muito alto, normalmente as vagas são repostas com salário mais baixo, já que a procura é maior”, explica.

SETORES

Dos 755.765 trabalhadores formais do Grande ABC, 52,6% atuam no setor de serviços (397.831). Na indústria, que sofreu mais com a crise econômica dos últimos anos, estão 23,7% (179.328) dos profissionais. E, no comércio, 19,4% (146.545).

O segmento que mais contratou no ano passado foi serviços, com acréscimo de 9.421 vagas. Seguido do comércio, com 5.782 postos. E, em terceiro lugar, aparece a indústria, com 4.078 posições.


Conforme o Diário publicou recentemente, levantamento da base do Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos) no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, mostra que o rendimento médio do trabalhador na indústria regional é de R$ 4.617, enquanto que o valor médio pago pelos outros setores, como serviços, comércio e construção civil, é de R$ 2.869. Ou seja, é mais barato contratar em outros segmentos. E, com isso, a média salarial também é achatada.

Setor mais afetado pelas crises na região, a indústria acaba eliminando postos e não repondo. E, se existe reposição parcial, ela se dá com salários menores. “Possivelmente, 2019 ainda registra movimento de recomposição do setor industrial, muito afetado entre 2015 e 2017”, afirma Maskio.

Quanto aos empregados de serviços, que representam mais da metade da força de trabalho regional, não necessariamente a mão de obra é formada por pessoas deste segmento, destaca Balistiero. “Muitas vezes são pessoas que migraram ao ramo porque perderam o emprego na indústria. Ou que já estão desempregados de fábricas há algum tempo e, sem opção, mudaram de área. E, consequentemente, de salários.”


Mercado retrocede em uma década

Ao analisar o total de trabalhadores com carteira no Grande ABC, o volume retrocede em uma década. Dez anos atrás, em 2009, havia 741.110 empregados formais nas sete cidades. Esse montante foi crescendo nos anos seguintes, tendo como pico em 2013, com 833.370 profissionais, curva que foi caindo até 2017 e voltou a crescer nos últimos dois anos.

“O Grande ABC perdeu a capacidade de gerar emprego. Só o crescimento gera atração para o emprego. Reformas são importantes, mas não suficientes. Até o presente momento, o Ministério da Economia não apresentou proposta firme de retomada. Por isso, patinamos e não criamos postos de trabalho. Ainda retrocedemos em dez anos. Isso numa região como o Grande ABC, em que a mão de obra é qualificada. Imagine em outras localidades do Brasil, que não têm essa característica. A situação deve estar pior”, dispara Ricardo Balistiero, do Instituto Mauá de Tecnologia.

 

Fonte: Soraia Abreu Pedrozo Do Diário do Grande ABC 03/11/2020


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