Fechamento da Ford pode gerar até 9.250 cortes na cadeia

Autopeças da região são as que mais sentem queda na demanda, que reduz faturamento e causa demissão


Na última semana, o encerramento definitivo da produção na fábrica da Ford, em São Bernardo, concluiu história de 52 anos da fabricante na região. Além dos demitidos – que aguardam a conclusão do processo de negociação entre a montadora norte-americana e a Caoa, na torcida para que a companhia assuma a operação da unidade – fornecedoras do setor automotivo também sofrem com o fechamento das portas da unidade localizada na Avenida Taboão. Pelo menos 9.250 trabalhadores que atuam na cadeia de autopeças podem devem ser dispensados.


De acordo com estimativa do SMABC (Sindicato dos Metalúrgicos do ABC), para cada operário demitido de montadora, outros cinco profissionais perdem o emprego nas firmas que abastecem o segmento. Ou seja, os 1.850 dispensados da Ford desde o início do ano podem implicar o desemprego de outros 9.250 nos fornecedores.

Os últimos 650 colaboradores do chão de fábrica devem ser desligados definitivamente até a próxima semana, já que o fim da produção de caminhões ocorreu na quarta-feira, dia 30. Com isso, cerca de 3.250 metalúrgicos ainda podem perder o emprego em autopeças.

A planta da montadora norte-americana produzia, até julho, o New Fiesta e, até a semana passada, três modelos de caminhões: Cargo, F-4.000 e F-350.


Localizado na mesma avenida que a fábrica da Ford, a Metalúrgica Paschoal, fundada em 1974, foi uma das que sentiu o fim da produção da montadora na região. Ela fornecia peças e conjuntos estampados para os caminhões fabricados em São Bernardo e, desde fevereiro, quando a montadora anunciou a saída do segmento de pesados na América do Sul, ela já sentiu uma redução de 25% no faturamento. Por causa disso, cerca de 50 funcionários foram demitidos – atualmente são 170 na metalúrgica, ou seja, houve redução de 22,7% no seu quadro de funcionários.


De acordo com o proprietário Wilson Paschoal, a Ford era o segundo principal cliente da metalúrgica. Agora, ele afirmou que a empresa está atrás de novos contratos para suprir a perda.

“Estávamos em uma situação confortável e, agora, saímos atrás de cliente. Mas temos muitas coisas em vista. Tanto que estávamos ampliando a empresa, mas por causa desse recuo provocado pela queda da produção, isso que já era para ter sido concluído. No entanto, só está acontecendo agora”, afirmou. Segundo ele, apesar do golpe, a empresa não corre o risco de fechar. “Teve um baque violento, mas esse risco não tem”, disse.

Mesmo com os altos e baixos da indústria automotiva, a metalúrgica não planeja mudar setor de atuação nem de fornecimento, até por causa da especialização na área. “Eu tenho uma cadeia de clientes no segmento e o sistema de qualidade desses produtos é diferente do que produzir para a linha branca, por exemplo”, exemplificou.

Diretor executivo da Irma Cestari, indústria de autopeças caminhão e ônibus localizada em Mauá, Celso Cestari, afirmou que mesmo não tendo produção direta para a montadora, também sentiu o impacto. “Nós fornecemos para um sistemista que atende a Ford, e tivemos um reflexo na linha de sistemas, com a queda na 25% na demanda. Mas há empresas que foram muito mais prejudicadas, pois metade do faturamento dependia só da Ford. Algumas devem até fechar”, afirmou ele. A redução em seu faturamento com o encerramento da Ford chega a 5%.


Segundo o diretor titular do Ciesp (Centro das Indústrias do Estado de São Paulo)de São Bernardo, Cláudio Barberini Júnior, as autopeças acabam sendo as mais afetadas. “Porque elas fornecem diretamente para a linha de produção, com peças de painéis para os veículos, por exemplo.

A ferramentaria é mais impactada quando tem um projeto novo, aí se faz um novo ferramental (molde para fabricar), isso antecede a própria produção”, afirmou.


NEGOCIAÇÃO

Mesmo com os entraves para obter empréstimo do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), as negociações entre Caoa e Ford para a compra da fábrica de São Bernardo seguem. A empresa brasileira acionou plano B ao enviar nova proposta, que deve ser analisada pela matriz da montadora norte-americana neste fim de semana.


Para especialista, existe luz no fim do túnel

Mesmo com perspectiva pessimista diante do fim da produção da Ford, as empresas fornecedoras podem conseguir outras clientes no segmento de caminhões. Isso porque a fatia que a montadora representava no mercado nacional de pesados – que era uma média de 12% no ano passado e, em outubro, correspondeu a 3,26% (sendo, no acumulado do ano, 7,06%) – vai ser absorvida por outras fabricantes.


De acordo com o coordenador de MBA em gestão estratégica de empresas da cadeia automotiva da FGV (Fundação Getulio Vargas), Antonio Jorge Martins, podem surgir oportunidades com as demais montadoras. “Existe uma tendência natural de as demais empresas ocuparem a posição de mercado que a Ford dispunha e de que venham a utilizar o parque de fornecedores atual. Claro que isso depende da empresa ou estratégia que ela possua nesse setor. As fabricantes de caminhões têm como estratégia diversificar o parque, então podem surgir oportunidades para que as fornecedoras da Ford sofram menos este impacto”, destacou ele, destacando a importância de buscar outros parceiros.

Já para o diretor executivo da Irma Cestari, Celso Cestari, esse processo pode não ser tão simples. “Montadoras têm projetos específicos, então o que você desenvolve para Ford, não vai trabalhar com outra fabricante. Por uma decisão de saída do cliente, necessariamente as demais vão ganhar espaço, então pode ter alguma compensação. Se é um fornecedor comum, esse tem mais chances.”


Proprietário da Metalúrgica Paschoal, Wilson Paschoal afirmou que se as negociações para a venda da planta da Ford à Caoa se concretizarem, ele deve procurar a nova empresa. “A ideia é buscar novos clientes para suprir a falta (da Ford) e seguir em frente, mantendo o otimismo”, disse.


O presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Santo André e Mauá, Cícero Firmino Martinha, assinalou que apesar de as empresas menores sofrerem com a saída da Ford, a região ainda possui vocação econômica e mão de obra de qualidade. “Uma montadora que fecha impacta na cadeia. Mas essas empresas querem fornecedores de qualidade e aqui temos o melhor.”


Fonte: DGABC 04-11-2019

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