Pandemia escancara impactos da desindustrialização no Brasil

Dificuldades enfrentadas pelo país na produção de itens como insumos para vacinas evidencia sua dependência externa e a necessidade de se elaborar uma nova política industrial


No Brasil, a Bio-Manguinhos, da Fiocruz, e o Instituto Butantan são as duas únicas instituições que produzem vacinas

6 20 São Paulo – A fragilidade da indústria brasileira ficou mais exposta com a chegada da pandemia de covid-19 ao país. Em um momento em que se abriu uma disputa mundial por itens que iam desde produtos como álcool em gel e oxigênio até respiradores e insumos para vacinas, o Brasil mostrou o tamanho de sua dependência externa. E os efeitos de um longo processo de desindustrialização. Um dos exemplos que ilustra a situação foi a busca pelos Ingredientes Farmacêuticos Ativos (IFAs). São matérias-primas essenciais para a produção de imunizantes cuja produção hoje se concentra em países como China e Índia. No Brasil, a Bio-Manguinhos, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), e o Instituto Butantan são as duas únicas instituições que produzem vacinas. Mas, das 17 distribuídas, apenas quatro não dependem da importação de IFAs. De acordo com dados da Associação Brasileira da Indústria de Insumos Farmacêuticos, o país só fabrica 5% dos insumos para atender à demanda interna de medicamentos. Abandono de insumos Este cenário contrasta com um passado não tão distante. “É um acúmulo de três décadas de vários fatores. Na década de 1980 o Brasil produzia entre 50% e 55% dos insumos consumidos aqui. Naquele momento, começou também a investir pesado na indústria que produz medicamentos, abandonamos a indústria de insumos farmacêuticos e investimos maciçamente nos fabricantes de medicamentos. Foi muito bom, somos uma potência na produção de medicamentos, importantíssimos na produção de genéricos. Mas fomos deixando a indústria de insumos de lado”, pontua o presidente executivo da Associação Brasileira da Indústria de Insumos Farmacêuticos (Abiquifi), Norberto Prestes, em entrevista ao programa Outra Estação, da Rádio UFMG Educativa. “A abertura da economia no governo Collor foi feita sem cuidado, sem verificar como os diferentes segmentos seriam afetados. Na indústria farmacêutica, o que fizemos foi secar a capacidade de produção nacional e passar a importar tudo através das multinacionais”, pontua o professor da Faculdade de Saúde Pública da USP Gonzalo Vecina Neto, em entrevista à BBC. Impactos da desindustrialização A situação da área farmacêutica reflete um processo mais antigo de desindustrialização do país. Estudo elaborado pelo Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi) mostra que a indústria nacional foi a terceira que mais recuou, entre 30 países analisados, desde 1970. Ficou atrás somente da Austrália e do Reino Unido. “O que nos diferencia, contudo, é justamente que estes países já haviam atingido uma renda elevada quando iniciaram seus processos de desindustrialização, e continuaram aumentando sua renda a um ritmo muito superior ao Brasil nos anos que se seguiram”, ressaltam a professora associada na Universidade Estadual de Maringá (UEM) Eliane Araújo e o pesquisador na Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos) Samuel Peres, neste artigo. Os pesquisadores relatam ainda que o PIB da indústria de transformação, que representava 27% do PIB brasileiro na década de 1980, caiu para 11% em 2018. Em relação à indústria de equipamentos e materiais ligados à saúde, a produção das indústrias de aparelhos e instrumentos para uso médico-hospitalar, de precisão, teste e controle representou em 2018 somente 0,83% da produção industrial. E menos de 1% das exportações. Já as importações representaram participação seis vezes maior. Resultado: déficit de US$ 2,5 bilhões no setor. Déficit comercial No setor de indústrias farmoquímica, farmacêutica e química, a trajetória é similar. Sua produção equivalia a 11,08% do total da indústria em 1996, chegando a 2017 com 5,96%. Já o déficit na balança comercial relativo a estas indústrias passou de US$ 1 bilhão em 1989 para US$ 26 bilhões ao final de 2018. “Não tem nenhum país que conseguiu se desenvolver simplesmente exportando recursos naturais”, aponta a pesquisadora Eliane Araújo à Rádio UFMG Educativa. Ela destaca alguns dados da reprimarização da economia brasileira “Exportações de não manufaturados e produtos de baixa e média-baixa tecnologia foram responsáveis, em 2018, por 81% de todo valor exportado pelo Brasil. Já em relação às importações, 60% do valor foi para bens de média-alta e alta tecnologia.” Receita para a retomada Em agosto de 2020, a Rede de Pesquisa Solidária publicou nota técnica alertando para a redução das exportações brasileiras de bens de alta complexidade. E seus possíveis efeitos na cadeia produtiva. Defendendo também a necessidade de adoção de ações por parte do poder público. Para, dessa forma, evitar uma perda da competitividade que pode se tornar perene. “Vários estudos indicam que a redução da produção competitiva de bens de alta complexidade, caso se torne permanente, gerará efeitos negativos sobre a taxa de crescimento do PIB per capita brasileiro, sobre o nível de desigualdade de renda, e sobre a intensidade de emissões de gases de efeito estufa”, diz a nota. “É fundamental que as autoridades públicas elaborem e executem políticas voltadas para reverter os efeitos da epidemia sobre a produção de bens de alta complexidade, exatamente para evitar uma regressão ainda mais forte na produtividade e na competitividade do país no futuro próximo.” Assim, diante deste cenário, também seria preciso aumentar os investimentos em pesquisa e desenvolvimento (P&D) e em inovação. De acordo com o Instituto de Estatística da Unesco, o Brasil investe menos em P&D que todos os 37 países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). E, depois de um ciclo de quatro anos ininterruptos de crescimento no investimento, chegando a 1,34% do PIB em 2015, o setor viu este índice cair para 1,27% em 2016. Patamar que se manteve no ano seguinte. Discussão ultrapassada E o governo atual não acena com uma possibilidade de reversão dessa tendência. “O governo brasileiro está numa discussão, do ponto de vista econômico, ultrapassada, que ficou na década de 90. Do ultraliberalismo em que o Estado não intervém em nada, não adota políticas de desenvolvimento produtivo. Enquanto, paradoxalmente, nem o FMI hoje defende a austeridade fiscal da forma como o governo brasileiro tem proposto”, observa o professor da Faculdade de Ciências Econômicas da UFMG João Prates Romero, ainda à Rádio UFMG Educativa. “Dentro do atual governo não vejo qualquer possibilidade de reorientação de política econômica. O ministro Paulo Guedes é avesso a qualquer política de incentivo à produção. Voltar a entrar na corrida de produção de ponta, a corrida tecnológica, vai depender de um governo alinhado aos debates econômicos mais atuais”, afirma. Com informações da UFMG

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