Vida pós-Ford

    Ex-funcionários recorrem a trabalho informal e a franquias, mas não

    perdem a esperança de obter seus empregos de volta.


    Diante do encerramento da produção da Ford em São Bernardo, em outubro do

    ano passado, e da expectativa da venda do parque fabril a outra montadora, o

    que era aguardado por parte da Caoa – o que não se concretizou e frustrou ex-

    funcionários –, restou aos metalúrgicos lançar mão de plano B para pagar suas

    contas. Dentre as atividades desenvolvidas, houve quem passou a atuar como

    motorista de aplicativo, assim como os que decidiram se arriscar no universo

    do empreendedorismo. Tudo isso sem perder a esperança de retornar ao

    trabalho na fábrica do Taboão, mesmo que sob a gestão de outra companhia, e

    com salários em média 30% menores.


    É o caso do morador do Jardim Canhema, em Diadema, Leone Cleber Duarte

    Cruz, 29 anos, que cresceu vendo o seu pai trabalhar na Ford e sempre teve o

    sonho de também entrar na montadora, o que ele conseguiu em 2012 na

    unidade de Taubaté, no Interior. Em 2014, foi transferido para São Bernardo e,

    desde abril do ano passado, antes mesmo do encerramento das atividades da

    norte-americana, começou a trabalhar de motorista de aplicativo nos dias em


    que folgava da linha de montagem de caminhões. “Meu pai se aposentou há

    quatro anos na Ford. Ele entrou lá em 1992 e tudo o que tivemos devemos à

    Ford, que era o sustento da nossa família. Eu queria isso para mim também,

    trabalhar numa multinacional, com bom salário e benefícios. Tínhamos

    sindicato ativo e ótimo plano médico. Agora sou autônomo, trabalho para uma

    empresa, mas não tenho nenhum vínculo com ela, somente faço as viagens e

    recebo por isso”, afirmou.


    A notícia do fechamento foi dada aos funcionários e à imprensa em fevereiro

    do ano passado. Cruz contou que, desde veio para São Bernardo, ficava

    bastante em casa, já que nem sempre trabalhava todos os dias da semana –

    isso já começou a ocorrer quando a montadora fez com que todos os operários

    atuassem tanto na produção de caminhões como na do New Fiesta –, mas

    nunca pensou na possibilidade de fechamento. Ele saiu da Ford com 1.300

    horas negativas, o que equivale a pouco mais de cinco meses em casa.Recém-

    casado no fim de 2018, foi pego de surpresa, já que tinha acabado de comprar

    apartamento financiado, além de arcar com os custos de móveis,

    eletrodomésticos e da festa de casamento. “Eu estava casado não fazia cinco

    meses, então me pegou de ‘calça arriada’. Foi uma dívida que fiz contando

    com o dinheiro que recebia, por isso decidi entrar no aplicativo, porque

    precisava pingar pelo menos um pouco mais. A gente recebeu a rescisão, mas

    uma hora o dinheiro acaba.”


    Desde então, a vida de Cruz mudou radicalmente. Na Ford, ele entrava às 7h e

    saia às 16h30. Como ponteador, trabalhava na soldagem do assoalho dos

    caminhões da série F, no início da linha, quando o esqueleto do veículo era

    estruturado. Seu salário era de R$ 5.400. Agora, dirige das 5h30 às 17h e, em

    um mês rentável, consegue tirar média de R$ 3.000, ou seja, seu rendimento

    despencou 44,44%. “Não é o que pretendo ficar fazendo para sempre, mas é

    dinheiro imediato. Ficamos na expectativa de alguma mudança nas

    negociações da fábrica, mas, enquanto isso não acontece, vamos nos

    adaptando.”


    Ele não perde a esperança e defende que a fábrica à qual se dedicou nos

    últimos seis anos tem capacidade para continuar a produzir. “Por mais que a

    Caoa não vá mais comprar, eu acredito que alguma empresa assuma. É um

    espaço bom, já tem tudo. A linha de caminhões é moderna e rentável. Por

    exemplo, nós fechamos enquanto Scania e Mercedes estavam investindo”,

    disse. Caso a venda da planta do Taboão não se concretize, Cruz pretende

    conquistar novo emprego na indústria de pesados ou montar um negócio de

    funilaria, curso que ele inicia nesta semana.


    EMPREENDER - Os ex-funcionários também enxergaram no desemprego uma

    alternativa para montar o negócio próprio, com ajuda do dinheiro da rescisão

    para a manutenção. O ex-metalúrgico Antonio Carlos Negreiros Januzzi, 43,

    efetuou a compra de franquia de esmalteria um dia antes de receber a notícia

    do fechamento da Ford. O intuito era que a sua mulher Ana Paula de Moraes

    Januzzi, 35, tocasse o negócio, que atualmente é o sustento da família.


    “Eu morava em Taubaté e consegui entrar na Ford em processo seletivo em

    2012. Com a crise de 2014, como eu tinha contrato temporário de dois anos,

    me disseram que teria de vir a São Bernardo ou seria demitido. Mudei toda a

    minha vida para cá, assim como a da minha família. Tive que ficar oito meses

    sozinho, porque meus filhos estavam no meio do ano letivo. Mas, desde então,

    sempre quis ter um plano B para não ver a possibilidade de perder o meu

    emprego desse jeito. Porém, eu vim para cá para não perder meu sustento e,

    depois de cinco anos, a Ford anunciou o fechamento”, contou.


    A franquia Unhas Cariocas foi inaugurada em setembro com quatro

    funcionárias no Golden Square Shopping, em São Bernardo. Atualmente já são

    nove. Porém, em vez do horário comercial que fazia na montadora, agora se

    dedica 100% do tempo à loja, trabalhando das 10h às 22h, todos os dias da

    semana. Januzzi já conseguiu igualar o salário que recebia (média de R$

    5.000), mas, mesmo assim, deseja voltar para a fábrica.


    “A loja se mantém, junto com a minha casa, não me sobra dinheiro. O novo

    negócio tem caminho árduo para percorrer, então, hoje, por exemplo, eu não

    consigo pagar a contribuição do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social)

    para mim. Aqui eu tenho obrigações e não posso me descuidar da saúde

    financeira da empresa”, relatou.


    A supervisora de produção Eidi Klein Gubica, 51, já tinha 24 anos de Ford em

    São Bernardo e há três anos chefiava equipe de 72 homens na formação de

    carroceria de caminhões. Ela decidiu investir em loja de moda íntima, no bairro

    em que mora (Moema, em São Paulo), que será inaugurada em fevereiro, após

    mandar vários currículos e não receber resposta. “Tenho duas faculdades

    (Engenharia Mecânica e Administração de Empresas) e inglês fluente. Acho

    que por causa da minha idade, não cheguei nem a ser chamada para

    entrevista”, lamentou.


    Ela contou que os últimos dias foram os mais pesados, após o anúncio do

    fechamento. “Foi terrível. Era um baixo astral. A gente entrava e via aquela

    fábrica deserta, era assustador”, lembrou. “Gostaria de voltar para esse

    mercado. Então colocaria um gerente na loja. Gostava do que eu fazia e estava


    realizada profissionalmente. A gente nunca esperava que essa fábrica em São

    Bernardo fosse fechar”, disse.


    STATUS - No início deste ano, a Caoa, que já tinha assumido interesse na

    fábrica, desistiu oficialmente da compra. Atualmente há duas montadoras

    chinesas interessadas na aquisição.


    Especialistas alertam para risco de precarização do trabalho

    Especialistas avaliam que a solução encontrada pelos trabalhadores é

    paliativa, e que pode gerar precarização nas novas relações de trabalho. Além

    disso, ponderam que, por mais que alguns trabalhadores estejam gerando

    emprego, o impacto do fechamento da Ford dificilmente será superado.

    O coordenador de estudos do Observatório Econômico da Universidade

    Metodista de São Paulo, Sandro Maskio, afirmou que recorrer a aplicativos é

    solução de curto prazo. “Trata-se de uma forma rápida de obter recursos para

    quem tem contas a pagar.


    Mas aqui vale a observação de que o Brasil não está

    se tornando empreendedor quando isso vem de uma precariedade do mercado

    de trabalho, e esses profissionais recorrem a uma fonte de renda alternativa,

    onde não terão benefícios como tempo de previdência”, disse. São exemplos

    também plano de saúde, FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço),

    PLR (Participação nos Lucros e Resultados) e vale-alimentação.


    O coordenador do Conjuscs (Observatório de Políticas Públicas,

    Empreendedorismo e Conjuntura) da USCS (Universidade Municipal de São

    Caetano), Jefferson José da Conceição, assinalou que não há absorção do

    impacto de fechamento da empresa. “Pelo contrário, estamos próximos do

    excesso de oferta de pessoas nos aplicativos, em algum momento isso não vai

    ser bom nem para o empregado nem para a empresa. Franquias são

    alternativa para quem está desempregado e alguns trabalhadores têm dinheiro

    de rescisão para investir.


    Porém, precisam ficar atentos e fazer estudo de

    mercado, já que se faz investimento elevado.” Sem contar que a taxa de

    mortalidade de novos negócios nos primeiros anos costuma ser alta.


    Fonte: DGABC 20/01/2020.

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